Opinião

O dia que o Obina salvou o Atlético da queda e tranquilizou um noivo que estava no altar

A história que vou contar aconteceu há exatos 11 anos, em 13 de novembro de 2010. Mas teve origem em março daquele ano, quando a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) divulgou a tabela do Campeonato Brasileiro. Como de costume, a entidade soltou todas as rodadas e possíveis datas, afinal o desmembramento dos jogos acontece depois, de acordo com interesse da televisão.

Para a 35ª rodada estava marcado o duelo entre Atlético x Flamengo, com mando dos mineiros. Pelo histórico de rivalidade e por geralmente ser a partida escolhida pela televisão, a tendência era de que o confronto entre Galo e Urubu fosse marcado para o dia 14 de novembro, um domingo. Quase sempre foi assim. O Flamengo visitando o Atlético seria o jogo da televisão aberta. Foi nisso que um amigo apostou e marcou a data de seu casamento para o dia 13. Portanto, na teoria, um dia antes do confronto.

Ideal para ele e também para boa parte da lista de convidados, afinal se trata de um profissional da imprensa. Casamento no sábado, convidados presentes e no domingo todos poderiam trabalhar normalmente. Data escolhida, local reservado, banda, buffet, cerimonial e tudo o que envolve um casamento. Tudo estava acertado já.

O Brasileiro foi rolando, a tabela era desmembrada de tempos em tempos e pimba. Por uma decisão da televisão, para reforçar a venda de pacotes pay-per-view, nada de Atlético x Flamengo no domingo. Atlético x Flamengo foi para o dia 13 de novembro, um sábado à noite, no mesmo dia e horário do casamento deste meu amigo. E agora? O que fazer?

Casar. Não havia mais nada para ser feito do que não manter a cerimônia de casamento enquanto Atlético e Flamengo se enfrentariam na Arena do Jacaré.

Chegou o dia

O Campeonato Brasileiro de 2010 não foi bom para o atleticano. O time se atolou na zona do rebaixamento e por um momento parecia que não seria capaz de escapar lá debaixo. Mas conseguiu escapar, na 34ª rodada. Empate em 2 a 2 com o Santos. O Galo chegou aos 36 pontos passou o Guarani, também com 36 pontos, mas com duas vitórias a mais foi o time alvinegro foi quem dormiu fora da zona do rebaixamento.

E o que o destino reservou para o final de semana seguinte? Somente um Atlético x Flamengo, separados por quatro pontos e ambos lutando contra o rebaixamento. Lógico que o Galo numa situação mais dramática. A semana da partida foi tensa. Afinal o Atlético havia conseguido sair da zona do rebaixamento um pouco antes, na rodada 31, mas retornou para lá já na jornada seguinte.

A vitória sobre o Flamengo, em casa, era fundamental. Aquele meu amigo com o casamento marcado para o dia 13, até já tinha acostumado com a ideia. Mas atleticano como ele só, não era possível ficar tranquilo. A tensão pelo casamento, o temor de um novo rebaixamento e ele sem como ter notícias da partida. Digo e afirmo, os dias dele foram tensos. Até que finalmente chegou o 13 de novembro.

Eu era setorista do Atlético pelo Diário Lance!. Mas não fui ao jogo. Tirei uma folga e fui para o casamento. Porém, nem todos da imprensa conseguiram fazer o mesmo. Fotógrafos, motoristas, outros repórteres. Enfim, muitos tiveram de seguir para Sete Lagoas. Um pouco antes da cerimônia, o assunto era um só: futebol. Além de Atlético x Flamengo, no mesmo dia teve Corinthians x Cruzeiro, aquele jogo do Sandro Meira Ricci. Tudo no mesmo horário. Casamento, clássico contra o rebaixamento e clássico valendo o título.

O gol de Obina

“Victão, me faça um favor? Me avise o placar do jogo quando eu estiver a caminho do altar”, pediu o noivo que se casaria em poucas horas. O início da cerimônia estava marcado quando a partida na Arena do Jacaré estivesse na reta final do primeiro tempo. Como bom amigo que sou, levei um radinho de pilha, fone e dei meu jeito de escutar os minutos iniciais da partida.

É claro que eu o avisaria o placar. Mas e se o Atlético estivesse perdendo? Seria bom contar ou seria válido mentir por causa do momento? Enquanto isso o jogo em Sete Lagoas não estava fácil, pelo menos na transmissão do rádio. Eu não vi esse jogo ao vivo e nem a reprise. Mas já eram 30 minutos do primeiro tempo o placar ainda marcava 0 a 0.

Foi então que começou a cerimônia. Embora realizada num salão de festas, teve os ritos como na Igreja Católica. Eis que chegou o momento de o noivo entrar. Foi justamente quando Obina marcou o primeiro jogo da noite, aos 34 minutos da etapa inicial. O noivo angustiado chegou, caminhava para o altar quando me viu e fez uma expressão como se estivesse perguntando: e aí?

Com a mão eu sinalizei que estava 1 a 0. Ele fechou os dedos e balançou a mão fechada, aquela comemoração tímida. Ainda deu tempo para uma conversa via leitura labial. Ele perguntou: de quem? Eu respondi: Obina.

O gol de Obina salvou o Atlético e tranquilizou o noivo que estava no altar. Quando liguei o rádio novamente, o Atlético já goleava. A partida terminou 4 a 1. Dali o Galo escapou da zona para não voltar mais. E alguns amigos que estavam trabalhando em Sete Lagoas ainda chegaram para o fim da festa.

Victor Martins

Natural de Belo Horizonte, iniciei no jornalismo no início dos anos 2000. Em Minas, atuei como setorista do América, Atlético, Cruzeiro e Ipatinga, onde, em 2008, morei para acompanhar de perto a equipe do Vale Aço na Série A do Brasileirão. Em 2009, trabalhei na cobertura da política relacionada ao esporte, pelo Lance!, em Brasília. Também trabalhei no Superesportes, TV Alterosa, iG, O Tempo, Uol e Yahoo Esportes. De volta ao UAI/Superesportes para escrever sobre os bastidores do futebol mineiro.

Ver Comentários

Posts Recentes

Acostumado com a dificuldade, o atleticano não enxerga a facilidade na conquista do Brasileirão

Antes de começar a escrever sobre o que está no título desta crônica, apenas um…

10 de novembro de 2021

A espera de 50 anos do Atlético vai terminar em poucas semanas. Um título que o torcedor esperou para ver com o pai e verá com os filhos

Em breve vai chegar o dia que várias gerações de atleticanos estão esperando: o Atlético…

7 de novembro de 2021

O Cruzeiro respira aliviado depois da penitência. Mas a vitória não pode esconder a realidade

O cruzeirense dormiu mal durante quase uma semana. Não foram raros os momentos em que…

6 de novembro de 2021

Thank you for trying AMP!

We have no ad to show to you!